O fim do SaaS
Será que a habilidade de copiar um SaaS é suficiente?
Tenho visto muita gente falando sobre o Fim do SaaS, com o avanço da inteligência artificial. Afinal, copiar uma aplicação nunca esteve tão fácil. Mas só isso é suficiente?
Tenho uma visão algo diferente que traz um novo ângulo à discussão.
Conhecimento
Vamos tomar como exemplo o SaaS fornecido pela Salesforce, que vi sendo usado como base da argumentação de várias pessoas que dizem que o “SaaS morreu”. A Salesforce foi fundada em 3 de Fevereiro de 1999. Ou seja, está no mercado há bastante tempo. Durante este tempo, acumularam conhecimento sobre a sua área de atuação, conhecimento que vai desde os negócios que auxiliam com seus serviços até a infraestrutura usada para que tudo funcione adequadamente. Sim, é possível copiar as funcionalidades do Salesforce apenas fornecendo as telas para uma IA gerar o código e ter a funcionalidade implementada, provavelmente de forma diferente pois não é possível inferir exatamente o que o software faz por debaixo dos panos.
IA alguma trará o conhecimento que levou à construção do software. E é aqui que reside o real valor que a empresa tem: todo o conhecimento e experiência criando e operando o sistema que vende aos seus clientes. Olhar pelo lado de fora e tentar inferir como a coisa toda funciona, ou seja, fazer engenharia reversa, nunca trouxe de volta o conhecimento e sempre foi uma tarefa árdua. A engenharia reversa resolve o O QUE e não o PORQUE. Historicamente, a engenharia reversa simplifica a busca ao PORQUE, pois você não precisa sair do zero absoluto. Mas ainda exige um grande esforço de estudo e descoberta.
Infraestrutura
O que o SaaS vende não é apenas funcionalidade, mas também infrastrutura. Você não precisa provisionar nenhum recurso de hardware quando assina um SaaS. Isso é problema de quem está te vendendo o serviço. Você também não precisa preocupar-se com compliance, segurança, atualizações, bug fixes: a equipe que vende o SaaS faz isso para você. Se você conseguir copiar o funcionamento do SaaS para uso dentro da sua empresa, você acaba assumindo todo o esforço inerente à manutenção da infrastrutura, bem como o custo de operação e manutenção.
E o custo de manutenção inclui não apenas a aplicação em si, mas também suas dependências: bancos de dados, agentes de transporte de emails para notificações, provisionamento em APNs de notificações push, emissão, gerenciamento e uso de certificados digitais para comunicação cifrada, manutenção de domínios, e por aí vai. Ou seja, tudo isso a sua empresa precisa assumir além de apenas copiar a funcionalidade do SaaS.
E este sempre foi o principal “salespeech” de quem vende SaaS: a infraestrutura deixa de ser problema da sua empresa.
Compliance é a bola da vez
Com a IA sendo usada para criar aplicações de forma rápida, a criação de aplicações locais e automações é facilitada, tomando o lugar de suites de automação de escritório, como o Office, e ferramentas de automação como o PowerAutomate ou o Automator da Apple. No entanto, isso traz um desafio ao compliance da empresa, pois uma aplicação criada por IA por quem não tem vivência com desenvolvimento de software pode se tornar um risco às operações.
No entanto, acredito que com o treinamento adequado e a educação dos colaboradores, isso deixará de ser um problema, levando-os a criar aplicações de automação internas que estejam de acordo com as regras de segurança e operação da empresa.
E aí, o SaaS vai ou não acabar?
Concluindo, eu acredito que não vai acabar. Afinal, o SaaS não resolve só o custo de criação da funcionalidade, mas também o custo de operação que pode ser inviável dependendo do tamanho da empresa em questão. Eu acredito que a internalização de um serviço não só é possível, como também é viável, mas não pode ser feita de forma leviana como muitos artigos que li sobre sugerem. É preciso um mínimo de planejamento, adequação das rotinas e, inclusive, treinamento. Afinal, mesmo uma aplicação feita in house precisa de treinamento de quem for usar. E tudo isso entra na equação. O custo de desenvolvimento se minimiza com a IA, mas o custo de operação e manutenção é mantido. Afinal, a infrestrutura precisa passar por atualizações de tempos em tempos visando manter a integridade do sistema, até em termos de segurança.
Escrever código é apenas uma pequena parte do processo de desenvolvimento de software. Existem diversas outras atividades envolvidas que torna o uso da IA, unicamente, insuficiente para suprir todas as necessidades. A IA é uma ferramenta extremamente poderosa, que acelera imensamente todas as nuances do desenvolvimento e operação de uma aplicação. No entanto, quem opera a IA precisa ter um mínimo de conhecimento para que o resultado seja adequado não só em termos de funcionalidade, mas também em termos de compliance e custo operacional.